PARA QUE A FÉ

Ser cristão é amar. Isto é ao mesmo tempo extraordinariamente difícil e simples. Mesmo quando parece difícil em muitos aspectos,  fazer essa experiência, no entanto,  é um conhecimento muito pacificador. Mas alguém podia comentar: Certo. É assim a mensagem de Jesus, e isso é consolador e bom. Mas o que fizeram dela os teólogos e os padres e a Igreja em geral? Se só o amor basta, para que os vossos dogmas, porque a fé, sempre a concorrer com a razão? Não terão razão os liberais ao afirmar que o cristianismo se perverteu, quando em vez de se falar de Deus como Cristo falou e da fraternidade, se construiu uma doutrina sobre Cristo; quando em vez de se ensinar o amor mútuo, se inventou um dogma intolerante; quando em vez de se pregar o amor, se exigiu a fé, tornando o cristianismo dependente de um credo?

Sem dúvida que estas questões são séria e, como todas as  grandes questões, não se podem ultrapassar com escapatórias fáceis. Ao mesmo tempo, devemos perceber que contêm em si muita simplificação. Para termos uma perspectiva correta, devemos aplicar à nossa vida tudo o que refletimos até agora.

Ser cristão é praticar o amor; é fazer a viragem copernicana na nossa vida, deixando de nos considerar o centro do mundo, à volta do qual giram todos os outros.

Se formos sinceros e honestos conosco mesmos, notamos que esta mensagem maravilhosa não é só algo libertador, mas que traz em si, ao mesmo tempo, algo muito perturbador. Na realidade, qual de nós pode dizer que nunca passou ao lado de uma pessoa com fome ou com sede, ou de alguém que precisava de ajuda? Qual de nós pode dizer que sempre se aproximou dos outros, com a intenção de fazer o bem? Quem não tem de admitir que, mesmo ao fazer o bem, não deixou infiltrar um pouco de egoísmo e de busca de si mesmo? Qual de nós não tem de admitir que ainda vive na ilusão pré copernicana, olhando os outros só em função de si mesmo? É por isso que a grandeza da mensagem libertadora do amor, como o conteúdo único e necessário do ser cristão, tem em si também algo de perturbador.

É neste ponto que se coloca a fé. No fundo, a fé significa que este déficit de amor que todos temos, foi compensado pelo superabundante amor de Jesus Cristo. Diz-nos simplesmente que Deus derramou a abundância do seu amor no meio de nós, cobrindo antecipadamente o nosso déficit de amor. Ter fé é, em última análise, tão só aceitarmos que temos um tal déficit; isto é, abrir as mãos e acolher os dons. Na sua forma mais simples e íntima, a fé não é mais do que aquele momento do amor, em que reconhecemos que nós mesmos precisamos de ser amados. Ter fé é aquele momento do amor, onde este se revela como tal; consiste em ultrapassar a auto-suficiência  e a auto-satisfação de quem nada precisa e diz: fiz tudo, não preciso da ajuda de ninguém. Só com esta fé acaba o egoísmo, o polo contrário do amor. Nesta medida, a fé está presente no verdadeiro amor; é aquele momento do amor, onde se realiza: a abertura daquele que não confia no seu próprio poder, mas que se sabe agraciado e necessitado.

Naturalmente que esta fé é susceptível de desenvolvimento e explanação. Nós precisamos de tomar consciência de que o gesto das mãos estendidas, a simplicidade do receber, onde o amor se revela na sua pureza intrínseca, é um tatear no vazio, caso não haja quem as encha  da graça do perdão. E tudo acabaria no vazio e no sem sentido, não fosse a resposta que é Jesus Cristo. Assim, o ato de fé, sinal do verdadeiro amor, já implica a desejada aceitação do mistério de Cristo, que, quando acontece,  se sente como um necessário desenvolvimento deste gesto fundamental, cuja recusa seria a rejeição da própria fé e do próprio amor.

Vejamos agora ao invés:  Sendo isto verdade, e havendo por isso uma necessidade absoluta da fé cristológica e eclesial, – continua igualmente a ser verdade que tudo o que  encontramos no dogma não passa duma exposição: exposição da decisiva e verdadeiramente suficiente realidade fundamental do amor de Deus e dos homens.

E assim, continua a ser válido que aqueles que amam verdadeiramente, e que ao mesmo tempo têm fé, se podem denominar cristãos.

(BENTO XVI. Credo para hoje. Em que acreditam os cristãos. Editora Franciscana. Braga . Páginas 13 a 15)

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