Gestação e relacionalidade

Dr. Ismael José Vilela

Durante muito tempo a reflexão filosófica enfatizou a individualidade e a racionalidade como os elementos essenciais da pessoa humana. A partir da segunda metade do século passado, sem desconsiderar esses dois aspectos, a filosofia tem aprofundado a relacionalidade como constitutiva do ser humano, ou seja, faz parte da essência do ser humano. Dessa afirmação resulta uma palavra significativa: alteridade. O outro é alguém que participa da minha condição humana. O “estar com”, o “encontro com o outro” é essencial.

Nós somos seres relacionais desde a concepção. A psicologia pré-natal tem trazido muitos conhecimentos referentes ao período que antecede ao nascimento, com sinais convincentes da relacionalidade desde os umbrais da gestação. Também as diversas correntes de psicoterapia que trabalham as experiências vividas no período da gestação colhem dados que sinalizam nossa relacionalidade desde a concepção. Todas essas experiências ampliam e aprofundam o conceito da maternidade e intensificam a sua vivência.

A partir dessa perspectiva, podemos afirmar que o primeiro outro com quem nos deparamos é a nossa mãe. A maternidade ultrapassa os limites da geração e da sustentação da vida e alcança a dimensão espiritual, portanto essencial, do filho. É a partir da mãe que nos tornamos um ser relacional. A mãe é, precisa ser, não pode deixar de ser, “mãe amável” desde o momento em que decide ser mãe ou descobre que já é mãe.

Além de gerar e sustentar a vida, a mãe é a primeira a pôr em ação nossa potencialidade constitutiva de amar, uma vez que o amor é a relação que por excelência nos une ao outro. A psicóloga Simonetta Magari (cf. Cidade Nova 10/2014), baseada em Marion Wolf, diz: “A subjetividade individual não nasce de uma instância cognitiva (o que posso conhecer?), mas de uma necessidade relacional (existe alguém que me ama?)”. Ou, dito de outra forma, existe alguém que eu possa amar?

A mãe, em qualquer circunstância, é amável por si  mesma; é da essência dela ser amável. Saber disso ajuda-a a não se exceder no esforço para expressar sempre mais amor, numa atitude super protetora, por exemplo. Ajuda-a também a afastar um possível sentimento de culpa por pensar que não amou o suficiente. Por ser mãe, ama; e por amar, é amável.

Os estudos da psicologia pré-natal e os dados colhidos das psicoterapias reconhecem que os estados emocionais da mãe, positivos e negativos, repercutem sobre o filho que está gestando. Isso é inevitável. Joana Wilheim, em seu livro: “O que é Psicologia pré-natal”, sugere: a mãe “pode, em  vários momentos do dia, dedicar a ele [o filho] uma atenção dirigida: conversando com ele baixinho, contando suas atividades e ocupações, os preparativos para recebê-lo, cantarolando cantigas de ninar, acariciando-o com ternura através do seu ventre, dedicando-lhe muito carinho. Nessas
conversas íntimas ela poderá também lhe explicar o que a teria transtornado emocionalmente poucos momentos antes”. Com base em pesquisas e observações científicas pode-se dizer que a motivação para a gravidez causa alegria ou angústia na criança já no útero materno. Por isso é recomendável uma reflexão aprofundada, por parte das futuras mães, sobre a motivação para desejar ou aceitar aquela maternidade. Gabriel Jorge Castellá, em seu livro La concepción y el sentido de la existencia, diz: “O fato de a concepção ser precedida de uma motivação amorosa, (…) oferece os mais valiosos nutrientes que a mãe possa incorporar ao projeto de vida do filho”. A mãe que gerar o filho pelo que ele é e virá a ser terá atingido o mais alto grau de amabilidade e terá dado a ele, já na concepção, a justa medida de seu próprio valor.

(Publicado na Revista Cidade Nova – Março/2015)

 

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