Ouvir ou escutar?

Dr. Ismael José Vilela

A PARTIR DO MOMENTO EM QUE A REFLEXÃO FILOSÓFICA ULTRAPASSOU O PARADIGMA DA INDIVIDUALIDADE e passou a considerar a relacionalidade como constitutiva da pessoa, vários aspectos da filosofia e da antropologia filosófica vieram à tona. E eles têm levado não só a uma compreensão mais profunda do sofrimento da humanidade, mas também à descoberta de alternativas que possam pelo menos minorar a dor humana. Dentro dessa perspectiva, muito se tem refletido sobre a empatia, sobre o diálogo. E, no diálogo, tem-se enfatizado a escuta.

Na nossa língua, há que se distinguir ouvir de escutar. Se recorrermos aos substantivos, a distinção fica mais clara: audição e escuta. A primeira faz pensar no automatismo, enquanto que a segunda traz consigo a ideia de intencionalidade.

O médico Marcio Lucio de Miranda, no livro A relação de ajuda. Guia do Treinando, dedica  um capítulo à escuta, que começa com a afirmação clara: “Escutar é uma habilidade de alta complexidade”. Se é assim, pode-se perguntar: será que sabemos escutar? Parece que nem sempre. Aquilino Polaino, catedrático de Psicopatologia da Universidade Complutense de Madri, escreveu um livro interessante, cujo título confirma essa dificuldade: “Aprender a escutar. A necessidade vital de comunicarmos”. 

O que vem a ser mesmo a escuta, o ato de escutar? Transcrevo a definição de Miranda:

“Escutar é esvaziar-se de si mesmo para que o outro possa entrar.

É fazer silencio interior. 

Escutar é o único ato de amor do qual não se pode duvidar”. 

Não é tão fácil escutar, embora estejamos prontos para ouvir. Pode acontecer que escutemos para nos preparar para falar logo em seguida. Pode ser que escutemos para termos a certeza de quanto somos superiores a quem fala, o quanto estamos bem face à situação da pessoa que escutamos, o quanto sabemos. A escuta pode ser uma estratégia de poder. O foco não estará sendo a pessoa que fala, mas a que escuta.

Todos nós temos uma certa disposição para ajudar alguém que esteja precisando. E, em contrapartida, sempre há alguém ao nosso lado que padece algum sofrimento. Nossa ajuda, na maioria das vezes, é oferecida sob a forma de palavra. Seja para um filho, um esposo ou esposa, um parente, um aluno, um amigo. Muitas vezes constatamos que nossa palavra não foi eficaz. É comum escutarmos a expressão: “Não me canso de falar”. Não seria o caso de se propor a escutar?

Polaino, no livro que citei, transcreve o trecho do filósofo Soren Kierkgaard: “O que é necessário para levar alguém, com um verdadeiro sucesso, a um ponto preciso? Ter antes o cuidado de o cativar e começar onde ele se encontra”. Esse “começar onde ele se encontra” significa abrir mão de tudo que se sabe, se quer, se pensa, para chegar à compreensão do que a pessoa que fala tem de si mesma.

Outra questão que se coloca é: Qual o bem que resulta de ser escutado? Polaino enumera vários efeitos experimentados por alguém que foi escutado, e os resume no seguinte: “Sentir- -se escutado é como que um renascer em si mesmo no qual, sem que nada tenha mudado, toda a pessoa se transformou. Escutar é pura atividade transformadora (da pessoa que fala), e autotransformadora (da pessoa que escuta)”. Quem passou por essa experiência poderá confirmar essa afirmação.

Cada palavra ouvida, seja ela de sofrimento ou de alegria, positiva ou negativa, expressa a experiência profunda,  talvez até inconsciente, de quem fala. Por isso, cada palavra é sempre uma dádiva. Receber a palavra do outro, seja qual for, como dádiva, cria a comunhão mais profunda entre quem fala e quem escuta. Assim a escuta constrói a comunhão, a partir do que muito sofrimento pode se dissipar.

(Publicado na Revista Cidade Nova – Setembro/2016)

Um comentário sobre “Ouvir ou escutar?

  1. Gratidão em poder ler esse texto que me fornece conhecimento e acresce meu desejo de melhorar como pessoa humana. obrigada Dr. Ismael. Maria Esther.

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