Somos livres

Dr. Ismael José Vilela

ENQUANTO AGUARDAVA para ser atendido numa clínica de oftalmologia, detive-me a admirar peixes num aquário. Mais do que admirar, contemplar aqueles animais exóticos, de uma beleza extraordinária. Deixei-me envolver pelo encanto e elegância de seus movimentos, a agilidade de uns, a calma de outros; cores variadas e vivas. Gastei todo o tempo de espera como que meditando.
Muitos pensamentos me ocorreram: a harmonia das formas, das cores, dos movimentos. A diversidade de espécies, comportamentos e temperamentos, se assim podemos dizer. Todos os peixes, cada
um a seu modo, executavam aquela dança, que parecia ser o sentido da vida deles. Por mais que eu evitasse, vinha sempre a ideia de um Ser que dispôs tudo aquilo e para o qual aqueles seres vivos se dirigiam.
O acaso não teria chance de compor tão bela harmonia, assim como seria um absurdo supor que essa maravilha não tivesse nenhum sentido. Pensei também: como seria bom se nós, humanos, conseguíssemos tão completa harmonia, cientes de onde viemos e conscientes do sentido da nossa vida. Seria muito bom se conseguíssemos viver e conviver com aquela harmonia, entre nós e com a natureza. Mas aí eu me assustei com o pensamento seguinte: os peixes não conseguiriam agir e viver de outra forma. Compreendi então um pouco mais do que vem a ser a liberdade. Liberdade
não seria poder escolher a desarmonia; antes, seria poder escolher, e não apenas seguir, a harmonia. Seguir a harmonia sem a escolher levaria à massificação. Escolher a desarmonia, equivaleria a renunciar à nossa condição humana.
O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, tendo passado pela experiência de prisioneiro em campos de concentração, distingue entre “ter liberdade” e “ser livre”. Eis o que ele escreve:

“Assim como o animal é seus impulsos, o homem é sua liberdade. Aquilo que apenas tem, poderá perder. A liberdade, porém, é característica permanente e definitiva do homem. Mesmo que a ela enuncie, o próprio ato dessa voluntária renúncia acontece na liberdade”.

A psicóloga Marina Lemos, por sua vez, faz a ligação entre liberdade e sentido.

“Não haveria mérito em realizar o sentido se não nos fosse dada a liberdade de não o realizar; em obedecer à consciência,
se não nos fosse dada a liberdade de desobedecer a ela. Porém a pessoa que escolhe não realizar o sentido, que escolhe contra a própria consciência, prejudica infinitamente a si mesma, pois se priva da felicidade que estava em seu poder receber como efeito colateral, como presente adicional da realização do sentido”.

Já a psicóloga educacional Martha Iglesias afirma:

“Somos responsáveis por nossa liberdade”. E Socorro Malatesta, também psicóloga, nos traz para uma dimensão mais concreta quando afirma: “Em
cada dia de nossas vidas nos deparamos com escolhas, mesmo que não nos apercebamos. Escolhas simples ou mais complexas, mas nossa vida se define a partir delas. Ter a consciência da nossa liberdade, e da responsabilidade decorrente, nos faz ter a vida nas mãos. Podemos nos perguntar: existe um sentido para nossas escolhas? Um sentido que nos move?”.

A partir da meditação inspirada no aquário, compreendi que a liberdade de escolher me distingue do peixe. Ele segue a harmonia porque não tem chance de escolher. Eu sigo a harmonia porque a escolho. Não serei humano se admitir a harmonia sem a escolher. Assim, compreendo um pouco mais a liberdade como valor. Passo a prezá- -la mais, porque é através dela que posso impregnar toda a harmonia do universo com o amor. É o amor que justifica a escolha da harmonia.

(Publicado na Revista Cidade Nova – Março/2018)

2 comentários sobre “Somos livres

  1. Escolhi pelo Icapp. De certa forma, fui escolhido pelo Dr. Ismael, pessoa que me ajudou a ter um pouco mais de harmonia na vida. Sou grato a todos do Instituto.

  2. Grande inspiração para repensarmos o sentido da vida e como fazemos as nossas escolhas !

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