O dia da Solenidade de Todos os Fiéis Defuntos, celebrada pela Igreja Católica em 2 de novembro, convida-nos a refletir sobre a experiência da perda e o processo de elaboração do luto. Para contribuir com essa reflexão, compartilhamos o texto “As fases do luto”, de autoria do médico pediatra Dr. José Luiz Lima, membro do Instituto Católico de Psicologia e Pesquisa (ICaPP), que apresenta as diferentes etapas vividas diante da perda de uma pessoa querida e aponta caminhos de acolhimento, superação e amadurecimento na fé.

As perdas pelas quais passamos ao longo da vida produzem uma quebra na rotina e nos ajudam a viver rupturas, que são de algum modo a vivência de um luto. Por exemplo: mudar de escola, de casa, de emprego, casar, descasar, aposentar, perda de um animal de estimação etc. Sempre que passamos por perdas vivenciamos as cinco fases do luto, que são inevitáveis para se chegar à superação. Para melhor clareza, reflitamos sobre o luto por morte de um ente querido, pois é um dos momentos mais difíceis em nossa vida.
Quando chega a notícia do falecimento de alguém muito querido a primeira reação que temos é negar que aquilo esteja acontecendo. Há pessoas que, em caso de acidentes, chegam a ver seu ente querido morto, mas não “cai a ficha” e parecem não “enxergar” e, por isso, vão até o pronto-socorro procurá-lo.
I – FASE DA NEGAÇÃO (não aceitação)
Por causa dessa fase da negação, ficamos remoendo a notícia: “será que não erraram de pessoa?”. E mesmo após o enterro, passamos algum tempo acreditando que a pessoa está viajando e voltará; se atendemos o telefone achamos que talvez possamos ouvi-la de novo. Se chega uma carta ou conta em seu nome algo se reacende dentro de si. Enfim, passamos ainda algum tempo fortes porque estamos negando a perda, próximos e “agarrados à vida anterior”, ao luto.
Permanecemos nessa fase enquanto ficamos guardando as coisas do falecido que poderiam ser utilizadas por outras pessoas necessitadas daqueles bens ou quando deixamos o quarto dele do mesmo jeito que era.
Não saímos dessa fase enquanto tomamos “calmantes”. Tais remédios são um grande perigo que a maioria dos médicos negligenciam e nem se dão conta de que estão atrapalhando a sequência normal de um luto. Com o uso de medicamentos acabam somente “espichando” mais essa fase. Remédios desse tipo devem ser tomados somente se houver algum risco de vida imediato. Tudo isso por achar que não vão suportar a fase seguinte que também é dura:
II – FASE DA REVOLTA (raiva)
Depois de se constatar que a perda é real e que negá-la não adianta, a segunda reação que temos é nos rebelar e nos revoltar. A tendência mais comum é nos voltar contra:
- Os médicos porque não fizeram tudo o que podiam ter feito;
- Os parentes próximos, que não acudiram em tempo;
- Deus, porque não podia ter levado aquela pessoa;
- O próprio falecido porque nos deixou sozinhos;
- Nós próprios com as culpas (“se eu não tivesse feito isso”, “se eu não tivesse falado aquilo”, “se…, se…”). O sentimento de culpa é ainda maior se não vivíamos bem com o falecido;
- O mais comum é nos voltarmos contra alguém que elegemos inconscientemente, pois, no fundo, sabemos que aquela pessoa nos ama e pode suportar nossas dores do luto.
O problema é que a raiva pela perda é demonstrada de forma camuflada, em situações do cotidiano, desfocada do problema real. Isso vem à tona quando “explodimos” por pouca coisa, deixando os outros perplexos. É preciso entender que a raiva, na verdade, não é contra aquela pessoa à nossa frente, mas, sim, a liberação da revolta, da dor pela perda de alguém muito querido.
A revolta contra nós mesmos pode se manifestar quando deixamos de nos cuidar, quando vamos atrás de “emoções fortes”. Por exemplo: recorrer a jogos (bingo, baralho, loterias…), beber ou comer exageradamente, fumar ou usar drogas (mesmo as “legais”), procurar desesperadamente outro parceiro sem os critérios “divinos” etc.
III – FASE DA DEPRESSÃO (isolamento ou apatia)
É a fase mais difícil porque vivemos aquela sensação de que nada na vida vale a pena. Que a própria vida não vale a pena e não conseguimos vislumbrar uma luz no fundo do túnel. É quando tendemos a nos isolar, a não querer sair ao encontro das pessoas e a querer ficar quietinho em nosso canto.

A televisão e seus programas contribuem para aumentar esse isolamento e a falta de esperança. Ela mostra desgraças e é justamente disso que gostaríamos de fugir naquela hora! Será preciso fugir também dos palpiteiros, dos aproveitadores e dos conselheiros “de plantão”. Por conta deste “rio” de ruindades, vale a pena conhecer o “jogo da culpa” que pode se instalar nesse período:
Quando nos fazemos de “vítimas”, cheios de “auto-piedade” é como se “descêssemos” da ponte pênsil e nos instalássemos numa “ilha”, que vai dar em nada. Queremos, muitas vezes, que venham muitas pessoas nos visitar, consolar, “salvar”, que tenham “dó” etc. Cristalizamos essa posição quando ficamos sempre culpando alguém pelo nossa situação. Na verdade, não queremos enfrentar a subida dessa ponte que exige uma certa disponibilidade ao plano de Deus para nós e também para o falecido.
Também somos vítimas quando temos medo de enfrentar toda e qualquer situação. Quando temos medo de nos sentir culpados. E Jesus já carregou todas as nossas culpas e pecados! Ele nos torna “limpos” todos os dias e essa é a grande novidade da “Boa Nova”, o Evangelho!
Os sinais de que estamos na parte da “descida” da ponte (fase da lamentação) são: a ausência de sonhos com o falecido ou sonhos negativos. Se isso estiver ocorrendo procure celebrar missas ou orações por você e pela pessoa. A ligação espiritual com a pessoa falecida é eterna. Ninguém tira! O positivo dessa fase é que “pior não fica” e que estamos caminhando para a superação da perda.
IV – FASE DA ACEITAÇÃO (conformação)
Essa fase chega quando entendemos que todo sofrimento por que passamos não vem de Deus, mas Ele se aproveita das nossas fragilidades
para nos ajudar a crescer. Aí, então, vemos que o plano de Deus é um plano de amor para nós e que valeu termos nos sacrificado para um bem maior! Todo sofrimento vivido com amor é libertador.
Chega-se a essa fase quando acreditamos que devolvemos e não que perdemos a pessoa querida falecida. A morte significa “nossa Páscoa”, isto é, passagem da escravidão para a “terra prometida”. E Deus sempre nos leva no melhor momento!
O melhor modo de se chegar a essa fase é começar a fazer coisas que o falecido gostava de fazer: algum tipo de trabalho ou lazer, leituras, jardinagem, pescarias, músicas, artes, esportes…
Demora-se cerca de um ano para chegar a essa fase, pois vão se passando todas as datas especiais do ano anterior nas quais o ente querido estava junto.
Fica muito mais fácil chegar a essa boa fase estando inserido em algum grupo. Existem diversos grupos de entreajuda nas cidades de porte médio ou grandes. Se não encontrar nenhum, procure formar um. Que tal um grupo de enlutados? Comece um grupo, mesmo com poucas pessoas, que Deus certamente se encarregará de lhe encaminhar outras pessoas!
Todas as pessoas que chegaram a essa fase começam a ter sonhos bons com o falecido e, muitas vezes, até sonhos premonitórios, isto é, sonhos de avisos para desviar de maus caminhos! A oração nos faz desviar dos caminhos errados!
Quando esses sonhos acontecem, também é um grande sinal de que temos mais um intercessor no céu olhando por nós! Que privilégio!
A leitura de bons livros e revistas nessa fase ajudam bastante. Sugerimos alguns: Pingo de Luz (I e II) de Gislaine Maria D’Assumpção (Editora Vozes); Não morra com seus mortos de René José Trossero (Editora Paulus); Faça as pazes com a vida de Ann Kaiser Stearns (Editora Saraiva); A morte na família de Lily Pincus (Editora Paz Terra).
Enfim, sugerimos que você faça uma lista de coisas e momentos bons que viveu junto da pessoa falecida e que tal escrever tudo? Ah, não deixe de frequentar a Igreja para se fortalecer na fé.
V – FASE DO “SALTO ADIANTE” (passo à frente)
Essa fase acontece quando conseguimos fazer planos para a vida novamente. Afinal, todos que já estão com Deus querem que continuemos felizes!
Chegamos a essa fase também quando usamos o nosso luto e as nossas experiências de vida para ajudar os outros que, muitas vezes, estão passando por lutos semelhantes. Quando usamos as nossas experiências negativas de vida e as aplicamos para ajudar outros, aí então estamos chegando na plenitude, na maturidade de vida. Esse é um estágio onde poucos sofrimentos ou mesmo nenhum outro nos abala, tempo em que a nossa fé se fortalece.
Quem chega a essa fase fica mais fortalecido, “vacinado” contra muitos outros sofrimentos e lutos que a vida “oferece” ou com que nos surpreende! Aliás, durante toda a nossa vida temos diversos lutos e diversas “pontes” desse tipo:
- Quando saímos do seio de Deus, na concepção e viemos para este mundo;
- Quando saímos do útero materno;
- Quando saímos do colo materno e/ou paterno e temos que “nos virar” sozinhos;
- Quando saímos da família para a escola;
- Quando saímos da infância para a adolescência;
- Quando saímos da adolescência para a vida adulta;
- Quando perdemos a juventude e chegamos à maturidade;
- Quando saímos de casa para morar fora;
- Quando saímos desta vida para a definitiva!
Dr. José Luiz de lima – Médico Pediatra – Ourinhos (SP)