O jejum não tem nenhuma finalidade em si mesmo. Junto ao redescobrimento dessa prática, enterrada durante tanto tempo, houve ocasionalmente tendências de considerá-la absoluta. No entanto, o jejum é um meio comprovado de ascese espiritual que, juntamente com a prática da oração e da caridade, pode nos conduzir à atitude correta diante de Deus e dos seres humanos.

Decisivo para a compreensão correta do jejum é que ele não seja considerado isoladamente mas que seja sobretudo vinculado à oração. Jejuar é rezar de corpo e alma. O jejum mostra que nossa devoção tem que se tornar corpórea, tem que se fazer carne, do mesmo modo que a Palavra de Deus se fez carne em Jesus Cristo. A oração se faz carne, atinge também nosso corpo, quando ela se expressa por meio do jejum.
Assim nosso relacionamento com Deus já não acontece apenas em nossa cabeça; assim deixamos de dizer a Deus meras palavras devotas e confessamos, com nosso corpo, nosso anseio de encontrá-lo, confessamos que estamos vazios sem ele, que dependemos de sua graça, que vivemos de seu amor e que nossa fome, em última análise, não pode ser satisfeita com alimentos deste mundo, mas somente pelo próprio Deus, por cada palavra que sai de sua boca (cf. Mt 4,4).
Dessa maneira, realizamos no jejum nossa existência enquanto criaturas que, criadas pela mão de Deus, encontram seu destino somente em Deus, que não se detêm com as dádivas, mas que buscam o próprio doador como meta de seus anseios. No jejum, estendemo-nos de corpo e alma para Deus, adoramo-lo de corpo e alma. O jejum é o grito do corpo por Deus, um grito a partir das profundidades, a partir do abismo no qual nós expomos nossa impotência, nossa vulnerabilidade e nossa insatisfação mais profundas, para nos deixar cair inteiramente no abismo de Deus.
ANSELM GRUN. Jejuar. Corpo e alma em oração. Editora Paulus – Páginas 123-124.